family-822558_1280

Historicamente, sempre que se fala em infertilidade, as mulheres assumem como se este fosse um problema seu. Desde a Bíblia é assim. Nossa sociedade reforça isso. E os homens agradecem! Mas será que há algum fundo científico para que assim seja entendido? Os registros médicos mostram que não. Aproximadamente, em 35% dos casais com infertilidade, a causa é exclusivamente masculina; em outros 35% dos casais com infertilidade, a causa é exclusivamente feminina. Nos 30% restantes, aproximadamente 20% dos casos de infertilidade se devem ao casal, em conjunto, pois ambos tanto o homem quanto a mulher contribuem para a infertilidade, porque é um binômio.

Os 10% de casos de infertilidade restantes podem ser classificados como de infertilidade ainda sem diagnóstico. Eu não gosto do termo sem causa, que costuma ser mais aplicado. Há sempre uma causa, só que os médicos não conseguiram descobrir ainda. Portanto, podemos dizer que o homem contribui com metade das causas de infertilidade de um casal. Atualmente, por causa da influência de fatores ambientais, como stress, poluição, cigarro etc, acredito que a participação masculina em infertilidade esteja crescendo.

A pesquisa sobre as causas de infertilidade de um casal deve envolver um urologista especializado em infertilidade e um ginecologista. Este é um cuidado básico para que seja feito um correto diagnóstico, com levantamento completo tanto dos problemas do homem quanto dos da mulher. Um diagnóstico correto aponta, muitas vezes, uma solução mais simples do que as pessoas pensam, quando a origem do problema está no homem. A infertilidade pode estar relacionada a uma simples infecção, facilmente curável com um antibiótico.

As infecções são a segunda causa mais importante da infertilidade masculina no Brasil. E, no entanto, isto é subdiagnosticado. Muitos casais passam por processos longos, caros e dolorosos em busca de uma gravidez, que, em alguns casos, poderia ter sido evitado. Outra causa comum, proveniente da ingestão de medicamentos, sequer costuma ser mencionada. Alguns antiinflamatórios, bloqueadores de cálcio para hipertensão, alguns antibióticos e alguns medicamentos contra gastrite afetam a produção de espermatozóides e diminuem a espermatogênese.

Muitas vezes o homem toma remédios, que acredita serem leves e sem contra-indicações, mas que na verdade provocam esse efeito colateral. Muitos casais chegariam com mais facilidade e rapidez à gravidez apenas a partir deste levantamento e da suspensão da medicação que, por algum motivo, o homem vem tomando. A primeira causa de infertilidade masculina é a varicocele, ou varizes escrotais. Atinge cerca de 45% dos homens que nunca tiveram filhos e até 85% dos homens com infertilidade secundária, ou seja, aqueles que não conseguem ter um segundo filho.

Há, ainda, a vasectomia, que tem na reversão o melhor custo-benefício; e as causas genéticas, como as alterações cariotípicas, relacionadas ao número de cromossomos, as microdeleções do cromossomo Y e a fibrose cística. Assim, com tantas possibilidades, por que o homem não é minuciosamente avaliado quando o casal não consegue engravidar? Falta, ao homem, a preocupação natural com seus órgãos reprodutores, desde a puberdade.

A mulher, muitas vezes já antes da primeira menstruação, vai ao ginecologista e começa, a partir daí, a fazer o acompanhamento de seu desenvolvimento. Para o garoto isso não existe. Os pais não se preocupam em levar o menino que entra na puberdade ao urologista, para um exame detalhado. Quando um casal procura uma clínica para tratamento de infertilidade, a mulher é submetida a uma série de exames. Já do homem, quase sempre, o máximo pedido é um espermograma, que não é minimamente suficiente para qualquer diagnóstico de infertilidade.

Um sinal de machismo de nossa sociedade?
Pois o Manual Merck de Informação Médica, com 1595 páginas, apresentado como uma publicação de Saúde Para a Família, dedica apenas 12 páginas para os problemas da saúde do homem. Já para Problemas da Saúde da Mulher, são dedicadas 128 páginas. E Infertilidade é assunto tratado, apenas, na parte referente à mulher. Planejamento familiar também.